Perdas e despedidas

Despedidas são sempre dolorosas. Não importa o tipo, nenhuma delas acontece sem alguma dose de sofrimento. Infelizmente, é impossível viver sem elas. Só conseguimos atravessar portas novas se deixarmos as outras para trás. Algumas pessoas não conseguem fechar as portas após atravessá-las. Vão as deixando abertas até que se perdem em um labirinto sem fim. Despedir-se significa conseguir fechar essas portas, mesmo que com vidro para poder visualizá-las sempre que quiser; significa conseguir perder.

É impossível crescer sem deixar algo para trás. Uma excelente metáfora é o nascimento: o bebê só pode viver se conseguir despedir-se do útero materno. Dizer tchau a cada etapa da vida dos filhos é uma arte que poucos dominam. Geralmente os pais ficam apegados a uma fase, e por mais que os filhos cresçam, continuam os tratando como se estivessem na fase anterior. Isso pode criar um distanciamento cada vez maior entre pais e filhos já que o que é visto não é o filho, e sim uma imagem com “delay”. Já tentaram falar ao telefone ou pelo skype quando existe esse gap, mesmo que de alguns segundos? Torna a comunicação inviável e confusa.

Percebo que hoje cada vez menos as crianças aprendem a perder. Os pais, e até mesmo as escolas buscam maneiras de evitar as perdas ao invés de ensiná-los a lidar com elas. Ninguém gosta de ver os filhos sofrendo, mas, por ser inevitável, o melhor seria prepará-los para esses momentos. Perder numa competição, perder um brinquedo, perder um animal de estimação ou até uma pessoa da família são situações que fogem do controle de qualquer responsável. Vejo competições nas escolas onde, independente do resultado, todos são premiados igualmente; famílias que repõem cachorros que morreram tentando substituir os antigos pelos novos ou então que compram imediatamente um objeto igual ao perdido pela criança. Se desde pequena, a pessoa se acostuma a lidar com as perdas, elas vão se tornando mais fáceis ao poucos. Se, ao invés disso, as perdas forem sendo tamponadas e escamoteadas, na hora que acontecem, o mundo acaba. Um término de namoro para um adolescente incapaz de lidar com perdas, separações e despedidas, pode levar a uma depressão severa.

O que mais importa no momento de uma perda não é o que pode ser dito a quem perdeu, é apenas estar junto. Alivia muito quando alguém reconhece que o que estamos passando é sofrido e permanece ao nosso lado. Sei que isso angustia os pais, mas é o suficiente. Quando meu filho tinha por volta de 5 anos, fomos à praia e ele estava de boné. Uma onda veio e levou seu boné de maneira que não conseguimos recuperá-lo. Aquela perda o marcou tanto que até hoje, 5 anos depois, ele ainda lembra. E o que no dia o deixou inconsolável, hoje ficou como um aprendizado. As perdas sempre deixam marcas, mas o que faz da vida de cada um interessante e única são as marcas.

Não podemos escolher quais sentimentos queremos sentir. Podemos apenas viver todos os tipos de momentos: ficar triste quando precisar, feliz quando puder, indiferente ao que não importa e acima de tudo refletir para então avaliar em qual momento nos encontramos.