O buraco de onde sai o leite

Vou iniciar esse post colocando o mais importante: no âmbito emocional, não há nada que uma mãe que amamenta no peito consiga estabelecer com o filho que a mãe que amamenta através de mamadeira não consiga!

Dito isso, podemos seguir adiante. Tenho visto muito radicalismo e deturpações de teorias que acabam gerando mais sofrimento do que conforto aos que tentam seguir. Já ouvi que todas as mães conseguem amamentar e sei que na prática não é assim. Já acompanhei de perto mulheres que tentaram muito e não conseguiram. Temos que lembrar que a amamentação é afetada por diversos fatores: stress, cansaço, ingestão de líquidos, apoio do ambiente, questões biológicas, cirúrgicas etc. Às vezes simplesmente não dá. 

Podemos dizer que o leite materno contém qualidades que a indústria farmacêutica não consegue recriar e os anticorpos não vêm nas latas de complemento. Ou seja, nutricionalmente falando, existe sim uma diferença entre os dois leites e eu imagino que a maioria das mães saibam disso. No entanto, esse post visa falar exclusivamente sobre o desenvolvimento emocional do bebê e da parte afetiva da relação entre ele e sua mãe. 

O estabelecimento do vínculo pressupõe presença, constância, disponibilidade, atenção e várias outros fatores que não envolvem o buraco de onde o leite sai. O contorno dado ao segurar o bebê no colo, o cuidado, o olhar apaixonado, disponível e atento às suas necessidades são o que desenvolvem a forte conexão entre a dupla. Se essa mesma mãe está mais envolvida com o estresse de não conseguir amamentar do que com a possibilidade do bebê ser alimentado, certamente o prazer de ambos não estará presente.

O senso de segurança da criança é desenvolvido com relações constantes que amparam e a ajudam a entender o que está sentindo. É aquele comportamento instintivo das mães que conversam com seus bebês dizendo: “o que você está sentindo? Será que é fome? Deve ser isso, você deve estar com fominha… vamos lá mamar!” A criança precisa ter um adulto por perto que seja capaz de se colocar no lugar dela sem sair do próprio lugar. Parece fácil mas quem tem filhos sabe que rapidamente nos damos conta de que nos igualamos à  idade deles nos momentos de atrito ou ansiedade. Infantes precisam de adultos (que permaneçam adultos) lhes ajudando a entender o que estão sentindo e pensando. 

Segurar no colo, amparar, fazer carinho e mostrar ao bebê que existe uma infinidade de maneiras dele se acalmar, transmite segurança. Ajuda-o também a internalizar esses dispositivos para conseguir aos poucos adquirir a capacidade de acalmar a si mesmo sem precisar de auxílio externo. 

Usar teorias que ajudam no pensar e no entendimento é diferente de transformá-las em protocolos de atuação. Que mãe ou pai não gostaria que o filho viesse com manual de instruções para evitar o erro? Mais ainda, quem não gostaria de evitar a angústia de tentar entender as necessidades dos filhos sem ter certeza? Infelizmente cada criança é uma e cada família também. Por isso, não é viável achar que orientações objetivas possam ser universais, a não ser que tenham sido cautelosamente pensadas para aquela família naquele momento.

Apoiar o aleitamento materno é ótimo! Quanto mais informações, maior a chance de um possível sucesso. No entanto, colocar a amamentação como única possibilidade de estabelecer um vínculo próximo ou de se tornar figura de apego é no mínimo irresponsável. 

 Mais uma vez reitero: nada por si só garante um desenvolvimento emocional saudável. O conjunto de tentativas e erros mostram aos filhos que não estão sozinhos. Sentir que têm alguém com quem podem contar para passar pelas dificuldades sem desistir, ajuda-os a desenvolver um self seguro.