Mãe recém-nascida*

Tudo o que eu queria era ser uma fortaleza para receber meu filho e adaptá-lo ao mundo. Me preparei, me informei, conversei, imaginei e afirmei muitas coisas antes da sua chegada. Eu só não sabia que eu não estaria lá nesse momento. Ninguém me falou que quem chega para receber o filho… é outra mulher!

Quando nasceu meu bebê, nasceu, sem eu saber, uma outra eu. E assim como qualquer um que recém nasce, o estranhamento me era total. O corpo, as marcas do parto, os hormônios em queda, as expectativas, aquele bebê, as marcas da amamentação: nada pedia passagem! Foi assim que me senti: em plena revolução desde o primeiro minuto que o meu filho nasceu. Minha vontade era pegá-lo no colo, transmitir a certeza do meu amor e pedir um pouco de calma. Confesso que por momentos eu quis fugir e até voltar no tempo para sentir que estava no controle da minha vida. Morro de medo de ficar sozinha com ele. Essa nova vida me fascina e me apavora. Me dou conta que a única certeza em meio a tantas dúvidas é a de querer amá-lo. Quanto mais quero amá-lo, mais insegura em errar fico.

Pode chorar mais baixo? Eu te amo! Pode esperar um pouquinho seu leite chegar? Eu te amo! Está mais tranquilo agora que te peguei no colo? Não? Sou sua mãe e te amo! Me mostra que estou acertando, por favor! Eu falo e sinto, ele não escuta e nem me entende. Ele chora, grita, eu não o entendo. Que desespero, e agora? Os outros fazem parecer tão fácil! Será que sou a única que não consigo?! Me sinto inábil e seu choro me enfraquece. Será que EU faço diferença na vida dele? Será que realmente me reconhece como mãe? Não consigo distinguir. Achei que nos reconheceríamos tão rápido, mas para nos reconhecermos é preciso nos conhecermos.

Sem tempo para grandes raciocínios e elaborações, eu, mulher mãe, tento me encontrar em mim mesma, enquanto um recém-nascido grita de fome, precisa de colo, conforto, segurança, higiene. Não necessariamente nessa ordem e com iguais prioridades. Eu preciso receber apoio, carinho, sono e alimento, enquanto arrumo um jeito de transmitir a segurança que ainda não fui capaz de consolidar. Como me sentir nesse direito diante das necessidades de um bebê? Somos dois seres em “construção”, em paralelas coincidentes, um precisando do outro: ele para sobreviver e eu para me reconhecer como mãe.

Mesmo com um filho desejado e saudável, estou tão insegura! Sei que as pessoas tentam ajudar, mas tudo o que escuto parece reafirmar a impossibilidade da minha insegurança.

É tudo tão intenso, ininterrupto, insone e eu sei que a minha atuação como mãe afeta diretamente você, a sua sobrevivência e a sua felicidade. É quase enlouquecedor! Será que qualquer deslize da minha parte o marcará para sempre? Mãe não pode errar, voltar atrás, mudar, fazer melhor? Leio tanto sobre a importância do que eu faço com ele e de como é meu espelho, que dá vontade de pedir “altos” e avisar que ainda sou “café com leite”!! Por favor, não coloquem todo esse peso em mim, pois ainda estou aprendendo as regras do jogo!

Ele precisa de mim e eu preciso dele. Deixa a gente aqui, vamos aprender juntos. Vou ficar lembrando que sou o adulto da relação e vou deixar você me ensinar a ser sua mãe. Me perdoe qualquer coisa, estou me esforçando demais. Quando puder, diga se estou indo bem! Vou ficar atenta ao seus sinais! Você sorriu! Já nem parece que não durmo há um mês… E como você cresceu! Finalmente sei quando você está com fome, sono ou tédio!

Tento a cada dia ser a melhor que posso e percebo que mesmo na exaustão, surge uma força inexplicável de dentro de mim. Que força é essa, que eu jamais imaginava ter? Todo carinho que recebi foi fundamental. Não conseguiria seguir sem comida na casa, sem um ouvido para escutar meus desabafos, sem um colo extra para você, sem muito companheirismo, muita compreensão!

Somos HUMANOS, nos relacionamos, erramos, acertamos, consertamos e remendamos. Meu filho, para você ser generoso com as suas próprias falhas, vou ser seu exemplo e farei o mesmo com as minhas.

 

  *Texto elaborado em conjunto com Dra. Lívia Esteves e Julia Lindenberg